sábado, 12 de maio de 2007

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"Nem tanto ao céu, nem tanto à terra" diz o velho ditado. Mas é sempre bom ter um contraponto. Ouvir o que o outro lado pensa. Embora o texto abaixo, publicado em uma revista semanal há mais de cinco anos atrás, apresente alguns pontos discutíveis, creio que ele possa nos despertar para uma visão crítica sobre essa imprensa que invade nossas vidas a cada dia, irradiando um turbilhão de informações pelas folhas dos jornais e revistas, mais recentemente pelas telas de computador via internet, e, talvez através do meio mais vilão de todos: a televisão.

O texto deixa subentendido porque notícias ruins atraem tanto a nossa atenção. Mostra que temos uma tendência natural ao pessimismo, justificado pelos diversos desastres coletivos que nossa espécie passou ao longo da história e que deixaram marcas no cérebro humano, além de registros tais como o de que tudo que sobe, cai, de que toda bonança é seguida de tempestade e, ainda, que não existe ninguém ficando mais novo a medida que o tempo passa.

Não vai ser a tônica, mas de vez em quando não poderei deixar de colocar aqui esses l o n g o s (e para alguns até chatos) textos.

O que faz as pessoas acharem que tudo vai dar errado, mesmo que as coisas estejam melhorando

Com exceção dos raros países em guerra e dos bolsões de miséria da África, a vida é hoje mais segura, pacífica, saudável e próspera para a maioria das pessoas do que em qualquer outro momento anterior da história do planeta. Um a um os profetas do caos, da escassez e do desastre global foram sendo desmentidos pela realidade. A comida não acabou como esperava o inglês Thomas Robert Malthus. Usando a lógica em moda do séc XVIII, Malthus previu que, como a população cresce geometricamente (1, 2, 4, 8, 16...) e a produção de grãos aritmeticamente (1, 2, 3, 4...) a fome mundial seria inevitável. Nunca se produziu tanta comida no mundo como nos anos que correm. Durante este século, previram-se o fim das reservas de petróleo, a escassez de metais como ferro, alumínio e cobre, a morte dos oceanos, o envenenamento irreversível da atmosfera e a eclosão de uma guerra nuclear. Nada disso aconteceu, e, no entanto, a derrota dos pregadores do apocalipse não provocou redução sensível do pessimismo. Mesmo sem catástrofes, o catastrofismo continuou firme.

“Para um bom pessimista, contra argumentos nada podem os fatos”, diz o filósofo alemão Alphons Silbermann, autor de um livro-chave para entender esse sentimento derrotista que parece impregnado nos genes da raça humana (Os profetas do fim do mundo – o negócio do medo, Editora Bastei-Luebbe). O renomado historiador inglês Asa Briggs, da Universidade de Oxford, outro que está interessado no assunto, acaba de compilar uma série de artigos do livro Como os séculos terminam 1400 – 2000 (Editora da Universidade de Yale), que registra um grau de pessimismo ainda mais acentuado nas viradas de século e milênio. “Uma sensação de perda mais do que de esperança no novo marcou essas épocas”.

Há uma força externa que se une ao pessimismo natural reforçando-o tremendamente. Trata-se do uso deliberado ou não, que muita gente faz do pessimismo. Governantes, militantes ecológicos, políticos, grupos de rock e, com freqüência irritante, a imprensa exploram esse filão psicológico. A MTV americana perguntou a milhares de seus espectadores entre 16 e 29 anos que palavra definiria sua geração. A juventude dourada do país mais poderoso e rico do mundo respondeu: “Raivosa”. A segunda resposta mais freqüente foi: “Esgotada”. “As letras das músicas pop falam irracionalmente em destruição instantânea e violenta do mundo, como se ainda vivêssemos sob o impacto da bomba atômica”, escreveu Michael Medved, crítico de cinema e autor do livro Saving Childhood: How to protect Your Children from the National Assault on Innocence (Salvando a Infância: Como Proteger Seus Filhos do Assalto Nacional à Inocência). O livro é uma bem articulada defesa da idéia de que a saudável insatisfação natural dos adolescentes acaba desfigurada em pessimismo e negativismo por programas de televisão, por algumas músicas de rock e pelo cinema.

Cansado de ler sobre o fim do mundo nas páginas de seus jornais e revistas preferidos, o advogado californiano Aaron Cohl passou a recortar tudo que lhe parecia exagerado e distorcido. A colagem de Cohl virou um livro devastador para o jornalismo moderno. Como o Pessimismo, a Paranóia e uma Imprensa Descontrolada estão nos Levando ao Desastre (Editora St Martin’s). As armas investigativas de Cohl são apenas aquelas que todo redator editor deveriam acionar antes de escrever uma reportagem: bom senso, ceticismo inteligente e coerência. “A imprensa – e não as corporações, os médicos ou os governos – é a principal fonte de informação do cidadão comum sobre economia, saúde e política”, diz o advogado. “Parece vago colocar a culpa na imprensa, mas boa parte do pessimismo reinante hoje é gotejada em nossas veias pacientemente pelos jornais, pelas revistas e pela televisão”, sustenta Cohl. Algumas das manchetes que chamaram a atenção do advogado: “Hambúrguer mata crianças!”, “O céu está caindo!”, “Sitiados por assassinos, estupradores e ladrões!”, “Desastre a caminho”. “O que mais assusta é que essas manchetes foram estampadas em publicações nacionalmente respeitadas, como os jornais The New Yorker Times e Chicago Tribune e as revistas Newsweek e Time”, afirma Cohl.

Com ligeiras adaptações, o diagnóstico de Aaron Coh sobre a situação nos Estados Unidos pode ser entendido para muitos outros países – para o Brasil com certeza. As pesquisas de opinião mostram que um dos maiores medos dos brasileiros heterossexuais solteiros do sexo masculino é adquirir Aids numa relação sexual ocasional. Segundo pesquisa feita no ano passado pela agência de publicidade gaúcha Como&Porque, 74% dos 1 200 entrevistados têm mais medo da doença do que ser assaltado, perder o emprego ou se acidentar. Segundo a Organização Mundial da Saúde, as chances de uma pessoa qualquer contrair Aids em algum país do mundo é 1 em 18 000. As chances de morrer atropelado em São Paulo são muitíssimas mais altas. Pela lógica as pessoas deviam temer muito mais a morte no trânsito do que a Aids. Voltemos ao advogado Cohl e à culpa da imprensa, “Como a morte de um jovem do sexo masculino pela Aids é um evento mais raro do que um atropelamento fatal, a imprensa vai dar sempre mais destaque à doença”, argumenta Cohl. “Isso cria nos jovens um medo infundado maior da Aids do que do trânsito”.

A mesma coisa ocorre com relação ao medo de voar. Como são mais raros os acidentes aéreos, eles sempre vão ter mais destaque na imprensa do que os de automóvel. A chance de morrer num acidente aéreo é de 0,2 em 1 milhão, menor, portanto, do que a de ser atingido por um raio (1,1 em 1 milhão) – e incomparavelmente menor do que as chances de morrer em um acidente de trânsito nas estradas brasileiras, que são de 2,7 em 100 (quase uma condenação). “O paradoxo é interessante”, diz Cohl. “Como a imprensa dá mais destaque aos eventos raros, ele acaba gerando medos inversamente proporcionais aos perigos reais”. No Brasil, a imprensa falou mais nos últimos tempos sobre uma doença distante que enlouquece e mata vacas na Inglaterra, a encefalopatia espongiforme bovina, cujo efeito nos seres humanos ainda é discutível, do que do mal de Chagas, presente em quase todo o território nacional.

O que o paradoxo de Cohl tem a ver com o pessimismo? O autor responde: “O ser humano parece ser o único animal capaz de procurar motivos para sofrer”. A revista americana U.S. News & World Report dedicou uma reportagem extensa em seu primeiro número de 1998 a mostrar que mais difícil do que convencer os editores a publicar fatos alvissareiros é fazer os leitores acreditarem em notícia boa. “Cite um problema social qualquer, do desemprego à criminalidade, do câncer à Aids, da mortalidade infantil à educação, e o país terá batido um Record positivo no ano que passou”, escreveu a revista. “Ainda assim, isso não é suficiente para que a maioria das pessoas passe a olhar o futuro com mais tranqüilidade e esperança”. Nesse ponto surge uma questão ainda mais intrigante. “A psicologia humana é de uma complexidade estupenda”, comenta o psicólogo americano David Meyers. “Se as condições materiais de vida melhoram ao mesmo tempo para todo um país, uma cidade ou classe social, elas raramente são percebidas como tais. Egoisticamente tendemos a entender que melhoramos de vida quando deixamos vizinhos e colegas a comer poeira”.

Pura verdade – em qualquer país. A maioria dos brasileiros de classe média desfruta hoje de um conforto material que, há menos de trinta anos era acessível apenas aos muito ricos. Ter carro e casa própria, poder viajar ao exterior, passar férias na praia, comer em restaurantes são confortos acessíveis, proporcionalmente, a mais brasileiros que em qualquer outra época da nossa História. No entanto, o inconsciente coletivo nacional, refletido nas pesquisas de opinião, minimiza e até anula esse progresso. A classe média brasileira sente-se mais espremida do que nunca. Tudo parece estar piorando.

Está-se a um passo da universalização do ensino básico no Brasil, um sonho que para gerações de brasileiros pareceu mais inalcançável do que viajar até a Lua. No começo da década de 60, apenas 54 em cada 100 brasileiros sabiam ler e escrever. Hoje, 85 brasileiros em cada centena lêem e escrevem. As grandes cidades pararam de inchar, a população passou a crescer em ritmos compatíveis com a modernidade, a taxa de mortalidade infantil caiu de 117 crianças mortas em cada 1000 nascidas vivas, nos anos 60, para 42 mortas no ano passado. A expectativa de vida no Brasil subiu para 67,6 anos, um ganho de 2,5 anos em um prazo de apenas cinco. E, no entanto, os bispos brasileiros acabam de divulgar o documento da campanha da fraternidade de 1998, no qual escrevem o seguinte; “Como é possível, nesse contexto crescente de miséria, insegurança e instabilidade, ausência de pai ou mãe, garantir aos filhos e às filhas as bases de uma personalidade equilibrada e segura, de uma educação adequada aos horizontes de uma vida digna, participativa e de esperança?” Ora, ora se até os bispos estão mergulhados no pessimismo, como esperar que as outras pessoas tenham pensamentos positivos?

O pessimismo não está sujeito a limites no espaço nem no tempo. Sempre existiu, e em qualquer lugar. Convive com a humanidade, como um animal doméstico, desde os primórdios da História. O Livro de Jó, do Velho Testamento, é considerado a primeira obra pessimista de que se tem notícia. Todas as culturas, dos celtas aos ianomâmis, produziram grandes pessimistas. Hamlet de Shakespeare, é um mergulho na desesperança. O escritor inglês Voltaire (1694-1778) e o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) são negativistas históricos. Para Shopenhauer, a primeira e maior infelicidade do ser humano é ter nascido, porque dessa decorrerão todas as outras desgraças. Sigmund Freud foi um pessimista trágico. O romancista americano Mark Twain (1835-1910), autor do impagável Huckleberry Finn, escreveu em sua biografia: “Só os tolos não são pessimistas”. Com tanto empuxo histórico é até um milagre que algumas pessoas consigam ainda ser otimistas.

“Instinto de colméia” – o demógrafo francês Alfred Sauvy, famoso por ter sido o criador da expressão “terceiro mundo”, procurou entender as razões desse paradoxo que parece ser tão resistente na opinião pública de qualquer país. Sauvy descobriu que, por mais paradoxal que possa parecer, os grupos sociais mais favorecidos por mudanças costumam ser aqueles que se mostram mais insatisfeitos. Segundo Sauvy, coletivamente as pessoas tendem a expressar uma insatisfação psicológica qualquer – com razão ou sem ela. Uma nação, classe social ou família que se livre de um problema maior vai logo engrandecer os problemas menores. Essa insatisfação seria algo tão forte na espécie quanto o famoso “instinto de colméia”, que, segundo o antropólogo francês Lévi-Strauss, é a razão fundamental pela qual a humanidade tende a se empacotar em grandes metrópoles. Tanto Sauvy quanto o psicólogo Myers flagraram um divórcio entre a realidade e a percepção da realidade. Esta parece ser uma lei natural. Para o notório pesquisador inglês Steven Pinker autor do livro Como Funciona a Mente, (Editora W.W. Norton), que está gerando polêmicas acesas de ambos os lados do Atlântico, é natural que as pessoas sejam sombrias com relação ao futuro. “Desde que a mente humana passou a registrar os fatos, ela aprendeu que tudo que sobe, cai, toda bonança é seguida de tempestade e não existe ninguém ficando mais novo a medida que o tempo passa”. Na visão de Pinker e outros biólogos da mente, o pessimismo seria fruto principalmente da insatisfação com a inevitável decadência do corpo na luta contra o tempo. Pinker sustenta que a mente humana desenvolveu ao longo da jornada evolutiva áreas específicas para certas fobias e predisposições – entre elas o medo de insetos, de cobras e a sensação de desastre iminente. Pinker diz que sempre se encontrará alguém disposto a acreditar em alguma catástrofe global – não importa qual a base real. “O processo evolutivo da espécie humana foi pontuado por desastres coletivos”, sustenta ele. “Por isso nossa mente está sempre alerta para esses tipos de previsões.”

3 Comentários:

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